9.30.2016

CNC machiningCastingscastinglost-wax casting806UhGHi - 邀请您查看

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Yang Shengwu
General Manager

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4.11.2011

Reminder about your invitation from João Batista Ferreira

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4.04.2011

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3.29.2011

João Batista Ferreira quer manter contato no LinkedIn

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João Batista Ferreira
Auditor Interno no Banco do Brasil
Rio de Janeiro e redondezas, Brasil

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11.22.2006

Feliz aniversário, Srta.Emma Thompson! - Miguel Saad



Ela era daquela forma, como se não pudesse se ver, olhar-se no espelho. É que lá não havia espelhos para se olhar e se ver. Então, adivinhava-se: pernas tão compridas que a distanciavam da grama que comia. Não se agachava para comer; angulava-se, como se fosse um compasso aberto para bicar o farelo no chão. Comia, enchia-se por dentro, estufava-se. As pernas, porém, continuavam sempre altas e magricelas, como se fossem membros isolados, como se Deus a tivesse dividido em duas partes.

O bico podia furar os olhos de um homem, se quisesse. Mas não queria. Era tímida por natureza. E tinha o medo delicado das donzelas. E tinha vertigem do homem, daquele homem que vinha de botas e mãos grossas trazer-lhes uma grande quantidade de ração e farelo. Ele entrava na pequena área onde todas, como ela, estavam cincunfechadas pela cerca de arame farpado toda esticada. Ela olhava de longe, sem nunca se saber forma, perna ou bucho. Não tinha a menor consciência também de que, naquele dia completava três anos de idade. Nascera, mas era como se ainda estivesse para nascer um dia. Tinha músculos, isto era verdade, mas será que também ignorava este fato?

Músculos eram para que, mesmo?

Quando o homem entrou, olhou para ela, como se tivesse premeditado suas ações. Será que ele levaria tudo o que era ela dali numa única braçada violenta? Sumiria com ela da mesma forma como geralmente acontecia com todas as outras, de uma hora para outra? Deixavam de existir e pronto, como um nascimento ao contrário. O olhar do homem a fez tremer um pouco mais do que de costume. Ele caminhava lentamente na sua direção, tentando esconder sua intenção atrás das tantas penas.

Ela não fez planos, porque nunca os fizera. Improvisava viver, sem se compreender. O bico para comer, as penas para se proteger, o bucho para encher, as pernas para... ser alta?

Mas aquele homem de botas e mãos grossas, cuja paciência e atrevimento ela olhava de soslaio, tinha um poder que ela decididamente não tinha. Isto, ela sabia pelo modo como as outras se afastavam dele, medrosas, aflitas, inseguras, magras. Enquanto andava no meio delas, abrindo caminhos, elas se dispersavam aos poucos, deixando para trás meia dúzia de penas pesadas rodopiando no ar. Uma dava algumas pernadas mais espaçadas, outra era levemente pisoteada; mas ela - individualizada agora - com suas duas únicas patas, agarrou-se à grama e a terra debaixo dela. Debaixo dela, o que havia? O destino?

Foi, então, que aconteceu a sua primeira vez (nos três anos de vida!). Percebeu sua fatalidade. De fato, ela seria a próxima vítima da carnificina a que sua espécie estava submetida e que aquele falso paraíso de boa grama, farelo, algumas árvores, vento e chuva na cara havia a enganado por tanto tempo tão bem. E, sem muita luta de consciência, pôde ver traçado todo seu curto destino ali mesmo, conectando a estranha linha que ligava o início ao fim. O homem vinha para pegá-la. De certo modo, isto a fez sentir-se diferente naquele dia. Ou era porque envelhecia? Algo estranho lhe subiu pela longa garganta dos avestruzes, vindo de uma região de seu corpo que ignorava, como uma nova força que explode em nós uma vontade intensa de viver e que já não era mais apenas vontade de comer, beber e dormir. Pela primeira vez, ela teve um desejo.

É claro que não mostrou ao seu proprietário sinais do plano que não planejava, ou da estratégia que inocentemente administrava em seu pequeno e leve cérebro lá de cima. Estava nervosa, mas estava radiante por dentro. Mas como comunicar seu desejo às outras avestruzes? Como mudar um destino tão bem traçado e organizado pelos homens? Estava sendo justa com eles, depois de tanto zelo e dinheiro gasto? Ela que tinha (pensava com certo esforço) apenas plumas e penas e um corpo pesado nas alturas. Será que era pesada demais para provar que – com penas – era uma ave e, portanto, poderia voar? Voar não longas distâncias, mas pequenos trechos aéreos, como se fosse o primeiro avião a ser testado na terra? Teria alcançado a sabedoria nata das de sua espécie? Porém, naquele dia do seu aniversário quis outra coisa, quis voar. Aquilo era pecado?

Para que serve uma daquelas que ela era? Por que viviam? Por que sumiam? Não tinha certeza. Sempre tivera fome, sede, medo e espasmos de coisas que eram como migalhas de pensamento. Passara todo o seu tempo, naquela fazenda, quando não dormindo ou comendo, tentando fazer com que todas as suas migalhas de pensamento se juntassem para, enfim, estruturar qualquer coisa que desse cabo àquela espera, a espera do sumiço repentino, como aquelas outras, todas iguais a ela. Isso, ela soube naquele instante: valia menos que o farelo que comia, esparramado e perdido no cosmo.

Começou a chover pesadamente. O homem não mudou seu curso, continuava sua investida, muito próximo dela, com aquelas mãos. E molhada, pôde, então, perceber-se melhor. Estava mais nítida. Toda água que escorria pelo corpo lhe deu o que estava faltando: a noção de si própria, seu volume, extensão, corpo e espírito. Sim, ela tinha espírito. Não sabia, porém, dizer o que era. Certamente, não era uma galinha. Galinhas são pequenas, embora com penas e bico. Também não era um homem: era bem maior que aquela espécie e era mantida do lado de dentro da cerca. Homens não têm pena, nem bicos; têm pêlos e bocas e mãos. Ensopada, associava, esquecida de ser como as outras de sua espécie. Coragem é uma palavra ou idéia bastante humana - deve ter raciocinado timidamente. Coragem é quebrar a lógica de um pensamento e unir-se a um outro totalmente novo. Então, compreendeu-se toda pela negação.

Com um descuido bastante delicado, correu como que enlouquecida no meio das outras que não entenderam nada. Correram também, esbaforidas, empenadas, como se tivessem sido jogadas em palco muito pequeno de um cabaré, as dezenas de outras iguais mas, agora, tão diferentes dela. Um trovão a ensurdeceu e, aproveitando-se do susto que levara, criou a tal da coragem. Quebrou a própria lógica e lançou-se ao vento forte.

Imitou o que, para ela, era um vôo de pássaro, porque sempre havia visto pássaros no céu. E foi levada pela sorte de uma lufada de vento para fora da cerca. “Voava” tresloucada, sem inibição ou medo de se espatifar no chão. Não era mais geométrica, precisa ou simétrica. Antes mesmo de cair, foi se desmantelando no ar como uma mulher que desfaz o penteado, retira a maquiagem, pousa o gesto e tira as meias apertadas depois de um longo dia de trabalho. E sente-se tão aliviada por não precisar mais ser “mulher”. Caiu longe do cercado, de asas abertas e olhos arregalados. Estava viva. Não acreditou em si própria. Ouviu gritos de homens e latidos de cachorro. Homens e cachorros. Não teria chance alguma. O destino seria infalível com ela também. Para onde iria se esconder se estava em um descampado, alta demais para as moitas? Do outro lado, viu a rodovia movimentada onde milhares de carros iam e vinham. Mas voltar, não voltaria. Seguiria adiante, atravessaria a rodovia do jeito que era, do que jeito que estava. Chamaria tanta atenção dos motoristas que, certamente, eles iriam parar seus carros apenas para vê-la atravessar até o outro lado.

Não ousou ter mais nenhum farelo de pensamento naquela hora de estrela. Foi de súbito contra o primeiro carro que viu. Vôo mais alto do que antes. E de lá, autorizou-se a sorrir pelo longo bico. Já não era de espécie alguma e, sim, um amontoado de penas e plumas sendo arremessado para o céu. A chuva havia parado. Não se sentiu mais: peso, corpo, bico, bucho, penas ou espírito. Não iria mais precisar de espelhos.

11.16.2006

Dorinha e as maçãs - Felipe Chusyd


Absorta talvez me sentisse. A sensação daquele ar abafado oprimindo o meu peito era tão presente quanto minhas idéias esvoaçando por todo aquele maravilhoso pomar da fazenda. Ele era lindo. Aquela imensidão de galhos, folhas e frutos oferecendo com seus braços estendidos a provisão da natureza, e eu não tinha nenhuma dúvida de que uma mãe nunca pode faltar em nossas vidas. A minha mãe natureza era a substituta autêntica de minha mãe biológica, da qual não tenho nenhuma lembrança. Perdera-a sem sequer conhecê-la, chegando criança àquele lugar onde só gostava de ouvir as palavras dos meus pensamentos. Era a minha letra já decorada, de minha digamos composição musical, com a qual me servia para cantar junto daquela orquestra formada a base de quero-queros e biguás, que estavam sempre fazendo coro comigo.

Eu fazia parte de toda a atmosfera que se formara na Fazenda Santa Adélia há exatamente um ano. E ninguém da família Castro ou da família Neves, que eram os proprietários daquela terra, pensara no meu bolo de aniversário. Aliás, deviam ser dois bolos, se lembrar que no mesmo dia em que completara dezoito anos, eu também começara o trabalho de colhedora de frutos na rica fazenda dos Castros e dos Neves. Depois vieram para me ajudar Colibri, Marujo e Enoque.

Um ano passa tão rápido. E muitas lembranças se foram, levando consigo pensamentos sem importância que nem fizeram força para ficar. Ou, quem sabe, de outra maneira, essas lembranças estavam sendo varridas junto com tais pensamentos na direção do vasto campo que se seguia ali e cortava a tranqüila cidade de Itapuí.

A macieira estava coberta de frutas. Parecia uma grande árvore de natal verde e vermelha recebendo os aniversariantes da época: grandes, esféricas e apetitosas maçãs. Todas elas celebrando aquele dia especial, manhã na qual uma insinuante idéia atravessou a minha mente e acendeu a lâmpada da esperança: que tal fabricar sucos de maçãs, Dorinha?!

Sabia que o Armazém do Nico, para onde eram levadas as maçãs que colhíamos na fazenda, poderia ter interesse e virar sócio no meu negócio. Digo meu porque idéia minha é negócio feito. Já podia antever que o Seu Nicodemos, o dono do Armazém, iria falar, colocando sempre o carro na frente dos bois. “Onde você tirou essa idéia, menininha aloprada?” Conheço bem aquele velhote e toda a minha freguesia, de cor e salteado. Quer dizer, minha é modo de dizer, porque não passo de uma colhedora de maçãs dona de tantas idéias que até Midas teria inveja. Afinal de contas, não era tão complicado assim abrir uma pequena fábrica de sucos e poderia ficar rica em pouco tempo.

Aconteceu o que já esperava e, diante da negativa do Seu Nicodemos, voltei para a fazenda e conversei com Colibri, Marujo e Enoque, meus três maravilhosos mosqueteiros e companheiros de pomar.

— Se pensam que por ser mulher não posso fabricar sucos, estão falidos das idéias. Eu me chamo Dorinha e mudo de nome se no próximo aniversário não estiver vendendo sucos de maçã prontos...

De perfil eu vi a imagem insinuante de Colibri, Marujo e Enoque, que agora pareciam mesmo eram os três porquinhos, se é que consigo explicar a forma engatada de eles expressarem, numa estranha seqüência de frases, a minha ânsia de ver o futuro.

— Eu posso ser o seu selecionador de maçãs, Dorinha.

— E eu o operador da máquina moedora.

— Comigo fica a contabilidade da fábrica. Adoro fazer contas...

Eu tinha um sentimento especial pelo mundo desses três homenzinhos que falavam aos meus ouvidos. Estavam sempre a postos quando mais  precisava deles, ao contrário dos fazendeiros que nem sequer sabiam o dia do meu aniversário.

Agora eu percebia um redemoinho apertar o peito, mas era conseqüência da alegria que experimentava ao perceber naqueles três uma autêntica motivação de crescermos juntos. Estaria assim respondendo a mim mesma que não passaria mais aniversários tão chochos como este, pois uma boa idéia traz junto de si um arrastão de vontade.

Não se sente o tempo correr quando existe certeza de que algo transborda das artérias do nosso corpo.  Foi assim que os dias e meses se sucederam. Exatamente um ano depois, quando as dezenove velinhas assopravam aqui dentro de mim, e eu já tinha aberto a minha fabriqueta de sucos de maçã. Claro, levei comigo meus três mosqueteiros. Eles  eram o sal grosso que precisava para impedir que a inveja dos Castro e dos Neves, que até então não haviam engolido a minha saída da fazenda, ficasse bem longe de nosso negócio. Acharam ingratidão da minha parte, enquanto eu e meus três porquinhos víamos como iniciativa, sair da mesmice, fugir do trabalho rotineiro, deixar de ser submissos.

Neste dia de meu aniversário, voltei à fazenda para tratar de negócios. Ela havia se tornado o meu maior fornecedor e precisava tentar convencê-los a manter o preço baixo, senão poderia ficar complicado. 

Estava nervosa, as mãos molhadas, os músculos do rosto rígidos. Mesmo assim, avançava na direção do largo vestíbulo da casa grande. Era o grande momento. Um aniversário que poderia se tornar inesquecível. Para o bem ou para o mal.

Meus pés pisaram uma folha seca na entrada. Havia um portão de ferro envidraçado depois do qual estaria dentro da casa grande. Não precisei seguir em frente. O Sr. Castro e a Sra. Neves abriram o portão e ambos me olharam com sarcasmo. Era como se viessem cobrar uma dívida com uma carta de fiança dada por mim. Fiquei sem entender por instantes. Talvez estivessem preparando alguma surpresa pois também ficaram na expectativa de alguma coisa inesperada.   

— Ainda bem que veio – disse a Sra. Neves com uma linha irônica desenhada no rosto —– Desta vez, não esquecemos o seu presente de aniversário.

O Sr. Castro de repente virou-se e apontou uma caixa ali atrás do portão. Seu sorriso me arrepiou. Continuei meio que descompensada por instantes diante do imprevisto. De fato, não esperava por aquilo. Senti meus pés incharem-se de repente e a sensação era a de que pesavam uma tonelada. Melhor, duas. Um pensamento atrevia-se na minha mente a esta altura e dizia para não demonstrar fraqueza. Não sei por que, mas era verdadeiro. Emoções desencontradas teimavam em disputar uma melhor sorte por várias partes de meu corpo àquela altura. Um chato pensamento repetitivo insistia em ressoar sem dó: “não vacile! não vacile!”. Alguns instantes mais e não conseguia reagir. Só aquele maldito pensamento alertando-me sem parar. E os outros, onde estavam? Não era possível eles me abandonarem num momento tão constrangedor. Alguma coisa estranha havia por trás da atitude daquele casal e só sentia o peso nos pés e agora minha boca tremer. Pensamentos: não me abandonem agora! Colibri! Marujo! Enoque! Voltem aqui!

Tarde. Tarde demais. Não conseguia mais pensar. As mãos do casal seguraram os meus braços e me empurraram para dentro da casa. Tropecei no meu próprio presente de aniversário e cai. Estava frita. Ou talvez assada, como aqueles três porquinhos em cima da mesa mostrando-se em belas tigelas de porcelana chinesa. Vi-os sorrindo.

— Colibri! Marujo! Enoque! – pensei alto.

Tarde. Tarde demais. Abri os olhos antes. E não consegui mais dormir pensando no que poderia ter ganho de presente de aniversário. 

Putz.



   

11.14.2006

Reencontro

Parabéns - Cícero Franco

Todo o ano é a mesma coisa. O pessoal se reúne no meu aniversário em alguma churrascaria. Muita cerveja, muita conversa e, na sobremesa, alguém bate com a faca no copo. Aí começa a cantoria e eu começo a morrer de vergonha.

“Parabéns, parabéns
“Saúde e felicidade”

E fica o restaurante inteiro olhando para a nossa mesa sem entender o que a turma está cantando. O que será aquilo? Por que aquele monte de gente canta algo que ninguém mais sabe o que é?




“Parabéns, parabéns
“Saúde e felicidade”

A cantoria é divertida, mas me constrange. Por que na nossa turma não se canta o “Parabéns pra você”? O mundo inteiro canta assim, menos nós.

“Que tu colhas sempre todo o dia
“Paz e alegria na lavoura da amizade”

E todos cantam a plenos pulmões, como se fosse para todos ficarem sabendo que na nossa terra até o Parabéns é diferente.


“Que tu colhas sempre todo o dia
“Paz e alegria na lavoura da amizade”

Depois muitos aplausos, abraços e gritaria. Aí eu sempre me emociono e choro.



11.13.2006

Aos 12- Bel Ascenso

Parabéns pra mim /tô de saco cheio de fazer trabalhinho de merda pra esses caras metido a dono do morro
nesta data querida/ hoje é dia de pagamento dos otário, mó bacana, vou me garantir/
muitas felicidades/depois que o velho morreu, mãe só fica nessa história tanque-máquina de costura, sem dinheiro pro aluguel do mocó/
muitos anos de vida/ hoje eu faço 12, mas neguinho me dá 15, tranquilo/
E pra mim nada/ aí, dona, vai passando a grana, o relógio, o brinco/
Tudo/ Passa tudo.
Então como é que é?/ Então, como é que é, tá esperando o quê, mocréia?
É/ é isso aí, na moral
É pique/ pô, tô correndo mais devagar hoje, por que será?
É pique/ tá difícil respirar, malandro...
É pique pique pique/ acho que vou parar de cheirar cola
É hora, é hora, é hora/ Sujou, malandro, tem um meganha bem ali
Ra - raiva
Tim- timbó, que nem a vó dizia quando a perna bambeava
Bum -.......
- Nossa, Matilde, ontem eu vi uma cena horrível, bem no farol que eu passo de carro todo dia. Mataram um moleque, acho que ele assaltou uma mulher. Coitado. Vou acender uma vela pra ele domingo, na missa.
Ah, dona Paula, carece de gastar sua reza pra esse infeliz não. Eu ouvi no rádio. O marginal é lá do meu bairro, é o Nildo, filho de uma comadre minha, só deu desgosto pra ela desde que nasceu. É como eu digo- pau que nasce torto morre torto.

Parabéns a você – Uau, quanta gente pra me ver
Nesta data querida/ eu ouvi meu pai dizendo que aquele negócio deu certo, ele tá montado na grana
Muitas felicidades/ beleza ter pai juiz, mãe socialite, na moral
Muitos anos de vida/ hoje faço 12, mas tem uns idiotas que me falam 10, por causa da carinha de anjo. Babacas
E pro Leonardo nada?/ Vou jogar tudo que tenho há mais de um ano fora
Tudo!/hoje eu vou ganhar tênis, bicicleta, relógio, mp3, celular, tudo novo
Então como é que é? / A Cinthia tá dando mole pra mim, é hoje que acabo com essa virgindade
É/ É, já resolvi, vou fundo é hoje mesmo, vou de bike, mais rápido, Cinthia...
É pique/ Coisa louca sair assim correndo de casa, mas hoje é meu aniversário, faço o que me der na telha...
É pique/ oba, um atalho que eu nunca tinha visto
É pique,pique, pique/ vou chegar lá na casa dela e
É hora, é hora, é hora/ Pô, moleque, vê se olha por onde anda, quase te atropelo, idiota!
Ra - Raiva
Tim/ timbó? Ô moleque, isso quer dizer o quê, tá me tirando, é?
Bum .......
- Dona Paula, que desgraça, a senhora viu o que aconteceu com aquele menino aí da frente, o filho do juiz? Parece que foi bala perdida. Vou acender uma vela pra ele, cruz credo se ele me aparece de noite, feito alma penada.
- Ai, Matilde, pára de me assustar, criatura! Pra dizer a verdade eu mal vi esse menino ou a família dele. Também, saio cedo, volto tarde, nem presto atenção na vizinhança. Morreu? É como eu digo, Matilde, dinheiro não traz felicidade

Aniversário - João Batista Ferreira


Eu nunca guardei rebanhos,
mas é como se os guardasse.
Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos



Luíza abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. Vê o rosto sem a moldura familiar do cabelo crespo – agora úmido e sem volume – sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar.
Com os dedos enrugados, sente o contorno da boca e do nariz. Olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro.
De repente fica imóvel. Perde o fluxo natural dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O reflexo no espelho revela outra imagem: outra Luíza, encolhida no casaco, dentro do frio da noite anterior, que sai do edifício onde trabalha, para o caminho até a parada de ônibus. Vê mendigos enroscados em jornais e trapos, diante de uma joalheria, pessoas ao redor de um corpo no chão com o rosto coberto, a vela acesa, a polícia. Mais adiante sente o cheiro enjoativo de fritura – uma mini-van de cachorro-quente. Passa por prostitutas que gritam com o motorista do carro que arranca rápido.
Uma outra Luíza, que pára diante da vitrine da loja elegante. Aprecia uma vez mais o blazer de micro-fibra. O preço ainda está fora do orçamento. Mas, quem sabe? Sim, tudo se ajeitava bem nos últimos meses e conseguiu, afinal, algum progresso.
Sim, outra Luíza – retoma a caminhada, sente-se segura com o toc-toc dos sapatos na calçada, quer acordar disposta no dia seguinte. Afinal, comemoraria dois aniversários especiais na mesma data: quarenta anos de idade, vinte de trabalho. O duplo ciclo de números redondos, vagamente mágicos e assustadores, que enfim se completavam.
O que falaria para os outros? Não escaparia das palavras de agradecimento, do breve discurso ao final da tarde. Falaria certamente do começo, da época em que nem se pensava em computador. Naquele tempo, datilografava os resultados sozinha. Disfarçaria o orgulho? Não, claro que não.
No ônibus, deixou que o cobrador ficasse com o troco.
Na manhã seguinte, chega animada e ansiosa ao escritório. Dr. Sarmento logo aparece, sorridente, para cumprimentá-la. Os outros percebem do que se trata e fazem o mesmo, mas sem muita animação.
Luíza liga para uma confeitaria. Discreta, confirma a encomenda, o horário de entrega dos pedidos: uma torta doce, uma salgada, os salgadinhos, refrigerantes, sucos, cervejas. As três garrafas de vinho, que comprou no supermercado no mês passado, estavam guardadas no armário de aço.
Depois tenta entregar-se ao habitual corre-corre do escritório. Vez ou outra olha para o relógio, repentinamente consciente da passagem do dia. Cada vez que o telefone toca, a respiração se interrompe por alguns segundos.
– É pra você, Luíza.
– Alô! Como vai, Roberto? Ainda não localizaram o malote? Roberto, veja se acompanha isso pessoalmente, por favor. Tem um relatório confidencial naquele malote. Ok! Ok! Obrigada. Um abraço.
A novidade vem pouco antes do almoço. Dr. Sarmento aparece na porta da sala e diz, com sorriso cansado que não disfarça a contrariedade:
– A Câmara Municipal finalmente aprovou a criação do feriado religioso para amanhã. Não vamos trabalhar.
Há semanas aguardavam uma definição. Luíza emudece. Os outros batem palmas, entusiasmados.
Almoça inquieta entre vapores e ruídos, enquanto as pessoas parecem mascar a carne e respirar aos sobressaltos. O cheiro do pequeno restaurante causa-lhe indisposição.
A cabeça lateja na parte da tarde. Os telefonemas permanecem com os assuntos de sempre. Quando um boy apresenta uma prestação de contas errada, Luíza se descontrola.
– Será que você não faz nada certo? – grita.
As pessoas olham para ela.
Luíza vai ao banheiro. Molha o rosto. Faz exercícios rápidos de relaxamento e algumas mentalizações positivas, que aprendeu no curso do último final de semana.
Um pouco depois, chegam as encomendas da confeitaria. Luíza se envolve na preparação da mesa. Derruba refrigerante na tolha e, quando vai enxugá-la, encosta o cotovelo na cobertura da torta.
No parabéns-a-você, quando todos batem palmas, ela chora. Muito.
Dr. Sarmento a beija. Luíza se confunde com os movimentos dos rostos e os lábios quase se encostam aos dele. Abraçam-se. Sente o perfume masculino com uma intensidade dolorosa. Mesmo sem olhar, sabe que as lágrimas ficaram no rosto dele.
Os beijos e abraços se sucedem. Sente vontade de falar do quanto está agradecida. Mas a boca seca. Não consegue dizer nada.
Até que anoitece e todos vão embora, exultantes.
– Você está abatida – diz Dr. Sarmento, na saída – Algum problema?
– A mãe doente no interior – inventa.
– Quer uma dispensa?
– Não, obrigada, já está melhorando.
Ele se despede e sai.
Luíza fica sob as luzes do escritório, entregue a um estranho desconforto. Não sabe o que fazer.
Então, como se estivesse distraída, descobre um micro ligado, alguns relatórios que deveriam ficar guardados, pastas trocadas no arquivo.
– Como podem ser tão relapsos?
Gosta do trabalho, não entendia os outros. Não era uma frustrada. Se fosse, odiaria o escritório, Dr. Sarmento, os colegas. Tinha ambição, é claro, queria uma vida digna, um futuro tranqüilo, não eram poucas as oportunidades? Bastava ver os mendigos e as prostitutas na rua. Era um pouco chata, reconhecia. Mas os chefes não são sempre assim? Bem que tentou aproximar-se das colegas, fazer-se amiga. Contava do sapato barato numa loja do subúrbio, falava dos próximos capítulos da novela das oito. Amenidades, sim, mas procurava sempre melhorar o clima no escritório.
Não adiantava. Não gostavam dela. Tornavam-se grosseiros com a intimidade. Uma vez surpreendeu Silvino, um boy de aparência doentia, escarrapachado na mesa dela, imitando-a com voz pastosa.
O olhar distraído ainda encontra documentos amassados, vários clipes no chão, umas plantas secas, um quadro torto e empoeirado, com a paisagem que comprou toda animada e foi recebida com indiferença pelos demais.
De repente, está arrumando e limpando tudo, varrendo o chão. Não percebe a passagem do tempo.
Até que, espantada, descobre no relógio da parede os ponteiros espetados: meia-noite. Fica imóvel no meio da sala, entre 8 armários, 3 arquivos, 9 mesas, 5 telefones, 1 fotocopiadora, 6 micros, 1 mulher, 1 relógio de parede, 3 quadros de parede, 1 máquina de triturar papel.
(a sensação agradável de chegar ao escritório todas as manhãs. O lugar onde, a um simples gesto seu)
Depois o instante se rompe. Luíza tenta um movimento.
Meia-noite e ainda está ali. Corre para a bolsa, apanha as chaves e sai.
O barulho oco da porta se fecha na escuridão. Tateia até o botão reluzente do interruptor. Pressiona-o.
A luz esbranquiçada, dolorosa, ensaia flashes intensos e indecisos e por fim se despeja no corredor.
Chama o elevador.
Silêncio.
Respira com dificuldade. Sente um pouco de tontura, talvez queda de pressão. Entra no elevador.
As portas se fecham.
Por que o mal-estar? Não estava tudo arranjado? E as impressões positivas recolhidas nos últimos meses? Sente-se só, confusa, nem forte, nem digna.
Por quê? Talvez porque não encontraria ninguém quando chegasse ao apartamento. Não encontraria Augusto, o vendedor de enciclopédias, o que não perdia a chance para um galanteio. Elogios forçados, percebia, elogiava o cabelo de Luíza, o perfume, o colar preferido – o mesmo que se partiu certa vez num motel. Ficaram quase uma hora procurando continhas no carpete com cheiro de mofo. Mesmo assim, elogiava o colar, como se nunca o tivesse visto. Apesar disso, sabia ser carinhoso. Nas entrelinhas das conversas, no entanto, havia os pedidos freqüentes de dinheiro emprestado. Tornou-se esquivo quando começou a cobrá-lo. Até desaparecer, deixando a dívida enorme.
Também não encontraria Júlio, de quem comprou a TV de 29 polegadas numa loja do Shopping. Romântico, até descobrir que era casado.
Tiveram noites de amor ardente. Depois a mulher dele adoeceu, não podia se separar. Meses, assim. Cada vez mais abrutalhado no amor.
Já perto do fim, ele virava para o lado e roncava. As meias frouxas nos pés. Acordava assustado, perguntando as horas.
– Meu Deus, o churrasco do cunhado.
E outras desculpas. Um dia, chorando muito, não deixou mais que ele entrasse. Júlio esmurrou a porta, gritou que voltaria, que a amava. Não voltou. Fazia quase dois anos.
Luíza vira o rosto, como se as lembranças fossem uma ofensa. O que está errado? Por que pensa tanto? São apenas bobagens, preocupações inúteis que às vezes atormentam as pessoas. Nada a ver com ela. Nunca se imaginou como a pessoa errada, na história errada, num papel que jamais seria o seu.
As portas do elevador se abrem.
Não cumprimenta o vigia na portaria – talvez pela primeira vez em vinte anos.
A caminhada até o táxi, entre bêbados e prostitutas, parece interminável.
Quando chega ao apartamento toma comprimidos para dormir.
Acorda tarde. As pálpebras inchadas descobrem olhos que observam o silêncio dos móveis, a parede marcada pela umidade, o fiapo de sol que escapa da cortina e desenha um retalho de luz próximo à cama. Luíza respira o ar abafado e a sensação familiar de estar em casa.
Levanta, sonolenta. Gosto amargo na boca. Escova os dentes com força maior que a habitual. Um filete vermelho escorre no canino esquerdo.
Entra no chuveiro. A água morna e boa desliza na pele.
Depois abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. O rosto surge do outro lado, sem a moldura familiar do cabelo crespo, agora úmido e sem volume, sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar. O rosto. O corpo nu. Os dedos enrugados percorrem o contorno da boca, olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro.
Perde o fluxo dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O que vem depois? Continuar ali parada, deixando que o vento gelado que escapa por baixo da porta arrepie a pele. Ou prosseguir com o que normalmente se faz após um banho – enxugar a água que escorre do cabelo e todas as outras coisas.
Foi ela quem viveu aquilo? Aquela mulher correndo à procura de táxi, enquanto uma sensação de febre atravessava o corpo?
O telefone toca, estridente. Luíza se desprende da imagem no espelho.
– Alô? Júlio? Obrigada. É, foi ontem, sim. O dia está lindo? Sei que tem sol, ainda não olhei pra rua. Almoçar? Daqui uma hora? Sim, Júlio, sim. Sim!
Júlio não percebe o súbito tremor e alegria na voz de Luíza, nem o repentino movimento de ar que brota do lugar onde se confundem as primeiras cores e aflições da alma. O som quase inaudível, que talvez pudesse se transformar em palavras. Palavras que, mesmo se Luíza as pronunciasse, Júlio não entenderia – porque assim eram os homens, muitas vezes desatentos. Palavras que, muitos anos antes, Luíza escreveu no seu diário, quando se apaixonou pela primeira vez. Palavras e versos que tentavam descrever sentimentos que viviam num lugar misterioso – o espaço estreito, infinito, incerto que pode existir entre amor e dor, dor e amor. Uma das primeiras rimas, logo nos primeiros versos – que desenhou com letra caprichosa – no diário perdido no tempo.