11.13.2006

Aniversário - João Batista Ferreira


Eu nunca guardei rebanhos,
mas é como se os guardasse.
Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos



Luíza abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. Vê o rosto sem a moldura familiar do cabelo crespo – agora úmido e sem volume – sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar.
Com os dedos enrugados, sente o contorno da boca e do nariz. Olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro.
De repente fica imóvel. Perde o fluxo natural dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O reflexo no espelho revela outra imagem: outra Luíza, encolhida no casaco, dentro do frio da noite anterior, que sai do edifício onde trabalha, para o caminho até a parada de ônibus. Vê mendigos enroscados em jornais e trapos, diante de uma joalheria, pessoas ao redor de um corpo no chão com o rosto coberto, a vela acesa, a polícia. Mais adiante sente o cheiro enjoativo de fritura – uma mini-van de cachorro-quente. Passa por prostitutas que gritam com o motorista do carro que arranca rápido.
Uma outra Luíza, que pára diante da vitrine da loja elegante. Aprecia uma vez mais o blazer de micro-fibra. O preço ainda está fora do orçamento. Mas, quem sabe? Sim, tudo se ajeitava bem nos últimos meses e conseguiu, afinal, algum progresso.
Sim, outra Luíza – retoma a caminhada, sente-se segura com o toc-toc dos sapatos na calçada, quer acordar disposta no dia seguinte. Afinal, comemoraria dois aniversários especiais na mesma data: quarenta anos de idade, vinte de trabalho. O duplo ciclo de números redondos, vagamente mágicos e assustadores, que enfim se completavam.
O que falaria para os outros? Não escaparia das palavras de agradecimento, do breve discurso ao final da tarde. Falaria certamente do começo, da época em que nem se pensava em computador. Naquele tempo, datilografava os resultados sozinha. Disfarçaria o orgulho? Não, claro que não.
No ônibus, deixou que o cobrador ficasse com o troco.
Na manhã seguinte, chega animada e ansiosa ao escritório. Dr. Sarmento logo aparece, sorridente, para cumprimentá-la. Os outros percebem do que se trata e fazem o mesmo, mas sem muita animação.
Luíza liga para uma confeitaria. Discreta, confirma a encomenda, o horário de entrega dos pedidos: uma torta doce, uma salgada, os salgadinhos, refrigerantes, sucos, cervejas. As três garrafas de vinho, que comprou no supermercado no mês passado, estavam guardadas no armário de aço.
Depois tenta entregar-se ao habitual corre-corre do escritório. Vez ou outra olha para o relógio, repentinamente consciente da passagem do dia. Cada vez que o telefone toca, a respiração se interrompe por alguns segundos.
– É pra você, Luíza.
– Alô! Como vai, Roberto? Ainda não localizaram o malote? Roberto, veja se acompanha isso pessoalmente, por favor. Tem um relatório confidencial naquele malote. Ok! Ok! Obrigada. Um abraço.
A novidade vem pouco antes do almoço. Dr. Sarmento aparece na porta da sala e diz, com sorriso cansado que não disfarça a contrariedade:
– A Câmara Municipal finalmente aprovou a criação do feriado religioso para amanhã. Não vamos trabalhar.
Há semanas aguardavam uma definição. Luíza emudece. Os outros batem palmas, entusiasmados.
Almoça inquieta entre vapores e ruídos, enquanto as pessoas parecem mascar a carne e respirar aos sobressaltos. O cheiro do pequeno restaurante causa-lhe indisposição.
A cabeça lateja na parte da tarde. Os telefonemas permanecem com os assuntos de sempre. Quando um boy apresenta uma prestação de contas errada, Luíza se descontrola.
– Será que você não faz nada certo? – grita.
As pessoas olham para ela.
Luíza vai ao banheiro. Molha o rosto. Faz exercícios rápidos de relaxamento e algumas mentalizações positivas, que aprendeu no curso do último final de semana.
Um pouco depois, chegam as encomendas da confeitaria. Luíza se envolve na preparação da mesa. Derruba refrigerante na tolha e, quando vai enxugá-la, encosta o cotovelo na cobertura da torta.
No parabéns-a-você, quando todos batem palmas, ela chora. Muito.
Dr. Sarmento a beija. Luíza se confunde com os movimentos dos rostos e os lábios quase se encostam aos dele. Abraçam-se. Sente o perfume masculino com uma intensidade dolorosa. Mesmo sem olhar, sabe que as lágrimas ficaram no rosto dele.
Os beijos e abraços se sucedem. Sente vontade de falar do quanto está agradecida. Mas a boca seca. Não consegue dizer nada.
Até que anoitece e todos vão embora, exultantes.
– Você está abatida – diz Dr. Sarmento, na saída – Algum problema?
– A mãe doente no interior – inventa.
– Quer uma dispensa?
– Não, obrigada, já está melhorando.
Ele se despede e sai.
Luíza fica sob as luzes do escritório, entregue a um estranho desconforto. Não sabe o que fazer.
Então, como se estivesse distraída, descobre um micro ligado, alguns relatórios que deveriam ficar guardados, pastas trocadas no arquivo.
– Como podem ser tão relapsos?
Gosta do trabalho, não entendia os outros. Não era uma frustrada. Se fosse, odiaria o escritório, Dr. Sarmento, os colegas. Tinha ambição, é claro, queria uma vida digna, um futuro tranqüilo, não eram poucas as oportunidades? Bastava ver os mendigos e as prostitutas na rua. Era um pouco chata, reconhecia. Mas os chefes não são sempre assim? Bem que tentou aproximar-se das colegas, fazer-se amiga. Contava do sapato barato numa loja do subúrbio, falava dos próximos capítulos da novela das oito. Amenidades, sim, mas procurava sempre melhorar o clima no escritório.
Não adiantava. Não gostavam dela. Tornavam-se grosseiros com a intimidade. Uma vez surpreendeu Silvino, um boy de aparência doentia, escarrapachado na mesa dela, imitando-a com voz pastosa.
O olhar distraído ainda encontra documentos amassados, vários clipes no chão, umas plantas secas, um quadro torto e empoeirado, com a paisagem que comprou toda animada e foi recebida com indiferença pelos demais.
De repente, está arrumando e limpando tudo, varrendo o chão. Não percebe a passagem do tempo.
Até que, espantada, descobre no relógio da parede os ponteiros espetados: meia-noite. Fica imóvel no meio da sala, entre 8 armários, 3 arquivos, 9 mesas, 5 telefones, 1 fotocopiadora, 6 micros, 1 mulher, 1 relógio de parede, 3 quadros de parede, 1 máquina de triturar papel.
(a sensação agradável de chegar ao escritório todas as manhãs. O lugar onde, a um simples gesto seu)
Depois o instante se rompe. Luíza tenta um movimento.
Meia-noite e ainda está ali. Corre para a bolsa, apanha as chaves e sai.
O barulho oco da porta se fecha na escuridão. Tateia até o botão reluzente do interruptor. Pressiona-o.
A luz esbranquiçada, dolorosa, ensaia flashes intensos e indecisos e por fim se despeja no corredor.
Chama o elevador.
Silêncio.
Respira com dificuldade. Sente um pouco de tontura, talvez queda de pressão. Entra no elevador.
As portas se fecham.
Por que o mal-estar? Não estava tudo arranjado? E as impressões positivas recolhidas nos últimos meses? Sente-se só, confusa, nem forte, nem digna.
Por quê? Talvez porque não encontraria ninguém quando chegasse ao apartamento. Não encontraria Augusto, o vendedor de enciclopédias, o que não perdia a chance para um galanteio. Elogios forçados, percebia, elogiava o cabelo de Luíza, o perfume, o colar preferido – o mesmo que se partiu certa vez num motel. Ficaram quase uma hora procurando continhas no carpete com cheiro de mofo. Mesmo assim, elogiava o colar, como se nunca o tivesse visto. Apesar disso, sabia ser carinhoso. Nas entrelinhas das conversas, no entanto, havia os pedidos freqüentes de dinheiro emprestado. Tornou-se esquivo quando começou a cobrá-lo. Até desaparecer, deixando a dívida enorme.
Também não encontraria Júlio, de quem comprou a TV de 29 polegadas numa loja do Shopping. Romântico, até descobrir que era casado.
Tiveram noites de amor ardente. Depois a mulher dele adoeceu, não podia se separar. Meses, assim. Cada vez mais abrutalhado no amor.
Já perto do fim, ele virava para o lado e roncava. As meias frouxas nos pés. Acordava assustado, perguntando as horas.
– Meu Deus, o churrasco do cunhado.
E outras desculpas. Um dia, chorando muito, não deixou mais que ele entrasse. Júlio esmurrou a porta, gritou que voltaria, que a amava. Não voltou. Fazia quase dois anos.
Luíza vira o rosto, como se as lembranças fossem uma ofensa. O que está errado? Por que pensa tanto? São apenas bobagens, preocupações inúteis que às vezes atormentam as pessoas. Nada a ver com ela. Nunca se imaginou como a pessoa errada, na história errada, num papel que jamais seria o seu.
As portas do elevador se abrem.
Não cumprimenta o vigia na portaria – talvez pela primeira vez em vinte anos.
A caminhada até o táxi, entre bêbados e prostitutas, parece interminável.
Quando chega ao apartamento toma comprimidos para dormir.
Acorda tarde. As pálpebras inchadas descobrem olhos que observam o silêncio dos móveis, a parede marcada pela umidade, o fiapo de sol que escapa da cortina e desenha um retalho de luz próximo à cama. Luíza respira o ar abafado e a sensação familiar de estar em casa.
Levanta, sonolenta. Gosto amargo na boca. Escova os dentes com força maior que a habitual. Um filete vermelho escorre no canino esquerdo.
Entra no chuveiro. A água morna e boa desliza na pele.
Depois abre um círculo com a toalha no espelho embaçado. O rosto surge do outro lado, sem a moldura familiar do cabelo crespo, agora úmido e sem volume, sem os brincos, nem a pintura discreta que costuma usar. O rosto. O corpo nu. Os dedos enrugados percorrem o contorno da boca, olha complacente para os seios, depois a barriga, a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro.
Perde o fluxo dos movimentos que conduziriam ao próximo gesto. O que vem depois? Continuar ali parada, deixando que o vento gelado que escapa por baixo da porta arrepie a pele. Ou prosseguir com o que normalmente se faz após um banho – enxugar a água que escorre do cabelo e todas as outras coisas.
Foi ela quem viveu aquilo? Aquela mulher correndo à procura de táxi, enquanto uma sensação de febre atravessava o corpo?
O telefone toca, estridente. Luíza se desprende da imagem no espelho.
– Alô? Júlio? Obrigada. É, foi ontem, sim. O dia está lindo? Sei que tem sol, ainda não olhei pra rua. Almoçar? Daqui uma hora? Sim, Júlio, sim. Sim!
Júlio não percebe o súbito tremor e alegria na voz de Luíza, nem o repentino movimento de ar que brota do lugar onde se confundem as primeiras cores e aflições da alma. O som quase inaudível, que talvez pudesse se transformar em palavras. Palavras que, mesmo se Luíza as pronunciasse, Júlio não entenderia – porque assim eram os homens, muitas vezes desatentos. Palavras que, muitos anos antes, Luíza escreveu no seu diário, quando se apaixonou pela primeira vez. Palavras e versos que tentavam descrever sentimentos que viviam num lugar misterioso – o espaço estreito, infinito, incerto que pode existir entre amor e dor, dor e amor. Uma das primeiras rimas, logo nos primeiros versos – que desenhou com letra caprichosa – no diário perdido no tempo.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

João, seu texto é soberbo! Há como que um recorte tênue e ao mesmo tempo denso de "duplos vivos" que parecem se desprender do conto em pequenas golfadas, palpitando e pulsando com grande vida. Gosto muito do que escreve e da alma intensa que permeia todo o seu conto.
Beijão
Felipe

16/11/06 23:01  
Anonymous bel said...

João, li e reli o texto e não encontrei um nadinha para tirar nem pôr. Tá perfeito! só não gostei do nome do chefe, o tal Sarmento (acho meio clichê, sei lá...) De qq forma isso é um detalhe, o conto está redondo, tem essa sacada dos duplos vivos a que o Felipe se refere, tem doses exatas de angústia, pequenas e fugazes alegrias, frustração, esperança. Gostei demais!
bjk
Bel

1/12/06 20:24  

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