11.13.2006

Aos 12- Bel Ascenso

Parabéns pra mim /tô de saco cheio de fazer trabalhinho de merda pra esses caras metido a dono do morro
nesta data querida/ hoje é dia de pagamento dos otário, mó bacana, vou me garantir/
muitas felicidades/depois que o velho morreu, mãe só fica nessa história tanque-máquina de costura, sem dinheiro pro aluguel do mocó/
muitos anos de vida/ hoje eu faço 12, mas neguinho me dá 15, tranquilo/
E pra mim nada/ aí, dona, vai passando a grana, o relógio, o brinco/
Tudo/ Passa tudo.
Então como é que é?/ Então, como é que é, tá esperando o quê, mocréia?
É/ é isso aí, na moral
É pique/ pô, tô correndo mais devagar hoje, por que será?
É pique/ tá difícil respirar, malandro...
É pique pique pique/ acho que vou parar de cheirar cola
É hora, é hora, é hora/ Sujou, malandro, tem um meganha bem ali
Ra - raiva
Tim- timbó, que nem a vó dizia quando a perna bambeava
Bum -.......
- Nossa, Matilde, ontem eu vi uma cena horrível, bem no farol que eu passo de carro todo dia. Mataram um moleque, acho que ele assaltou uma mulher. Coitado. Vou acender uma vela pra ele domingo, na missa.
Ah, dona Paula, carece de gastar sua reza pra esse infeliz não. Eu ouvi no rádio. O marginal é lá do meu bairro, é o Nildo, filho de uma comadre minha, só deu desgosto pra ela desde que nasceu. É como eu digo- pau que nasce torto morre torto.

Parabéns a você – Uau, quanta gente pra me ver
Nesta data querida/ eu ouvi meu pai dizendo que aquele negócio deu certo, ele tá montado na grana
Muitas felicidades/ beleza ter pai juiz, mãe socialite, na moral
Muitos anos de vida/ hoje faço 12, mas tem uns idiotas que me falam 10, por causa da carinha de anjo. Babacas
E pro Leonardo nada?/ Vou jogar tudo que tenho há mais de um ano fora
Tudo!/hoje eu vou ganhar tênis, bicicleta, relógio, mp3, celular, tudo novo
Então como é que é? / A Cinthia tá dando mole pra mim, é hoje que acabo com essa virgindade
É/ É, já resolvi, vou fundo é hoje mesmo, vou de bike, mais rápido, Cinthia...
É pique/ Coisa louca sair assim correndo de casa, mas hoje é meu aniversário, faço o que me der na telha...
É pique/ oba, um atalho que eu nunca tinha visto
É pique,pique, pique/ vou chegar lá na casa dela e
É hora, é hora, é hora/ Pô, moleque, vê se olha por onde anda, quase te atropelo, idiota!
Ra - Raiva
Tim/ timbó? Ô moleque, isso quer dizer o quê, tá me tirando, é?
Bum .......
- Dona Paula, que desgraça, a senhora viu o que aconteceu com aquele menino aí da frente, o filho do juiz? Parece que foi bala perdida. Vou acender uma vela pra ele, cruz credo se ele me aparece de noite, feito alma penada.
- Ai, Matilde, pára de me assustar, criatura! Pra dizer a verdade eu mal vi esse menino ou a família dele. Também, saio cedo, volto tarde, nem presto atenção na vizinhança. Morreu? É como eu digo, Matilde, dinheiro não traz felicidade

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Bel, minha querida, como roteirista você é ótima contista. Ou vice-versa, dá no mesmo.
Adorei a polaridade trágica com o seu verbo guilhotinesco. Do céu ao inferno; da beleza à feiúra; de cima a baixo, o trágico destino da esperteza perdida. Fruto das sementes sociais apodrecidas de humanidade. Brilhante sacada a sua. Adorei mesmo.
Parabéns pra você
Bjs
Felipe

17/11/06 14:48  

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