11.16.2006

Dorinha e as maçãs - Felipe Chusyd


Absorta talvez me sentisse. A sensação daquele ar abafado oprimindo o meu peito era tão presente quanto minhas idéias esvoaçando por todo aquele maravilhoso pomar da fazenda. Ele era lindo. Aquela imensidão de galhos, folhas e frutos oferecendo com seus braços estendidos a provisão da natureza, e eu não tinha nenhuma dúvida de que uma mãe nunca pode faltar em nossas vidas. A minha mãe natureza era a substituta autêntica de minha mãe biológica, da qual não tenho nenhuma lembrança. Perdera-a sem sequer conhecê-la, chegando criança àquele lugar onde só gostava de ouvir as palavras dos meus pensamentos. Era a minha letra já decorada, de minha digamos composição musical, com a qual me servia para cantar junto daquela orquestra formada a base de quero-queros e biguás, que estavam sempre fazendo coro comigo.

Eu fazia parte de toda a atmosfera que se formara na Fazenda Santa Adélia há exatamente um ano. E ninguém da família Castro ou da família Neves, que eram os proprietários daquela terra, pensara no meu bolo de aniversário. Aliás, deviam ser dois bolos, se lembrar que no mesmo dia em que completara dezoito anos, eu também começara o trabalho de colhedora de frutos na rica fazenda dos Castros e dos Neves. Depois vieram para me ajudar Colibri, Marujo e Enoque.

Um ano passa tão rápido. E muitas lembranças se foram, levando consigo pensamentos sem importância que nem fizeram força para ficar. Ou, quem sabe, de outra maneira, essas lembranças estavam sendo varridas junto com tais pensamentos na direção do vasto campo que se seguia ali e cortava a tranqüila cidade de Itapuí.

A macieira estava coberta de frutas. Parecia uma grande árvore de natal verde e vermelha recebendo os aniversariantes da época: grandes, esféricas e apetitosas maçãs. Todas elas celebrando aquele dia especial, manhã na qual uma insinuante idéia atravessou a minha mente e acendeu a lâmpada da esperança: que tal fabricar sucos de maçãs, Dorinha?!

Sabia que o Armazém do Nico, para onde eram levadas as maçãs que colhíamos na fazenda, poderia ter interesse e virar sócio no meu negócio. Digo meu porque idéia minha é negócio feito. Já podia antever que o Seu Nicodemos, o dono do Armazém, iria falar, colocando sempre o carro na frente dos bois. “Onde você tirou essa idéia, menininha aloprada?” Conheço bem aquele velhote e toda a minha freguesia, de cor e salteado. Quer dizer, minha é modo de dizer, porque não passo de uma colhedora de maçãs dona de tantas idéias que até Midas teria inveja. Afinal de contas, não era tão complicado assim abrir uma pequena fábrica de sucos e poderia ficar rica em pouco tempo.

Aconteceu o que já esperava e, diante da negativa do Seu Nicodemos, voltei para a fazenda e conversei com Colibri, Marujo e Enoque, meus três maravilhosos mosqueteiros e companheiros de pomar.

— Se pensam que por ser mulher não posso fabricar sucos, estão falidos das idéias. Eu me chamo Dorinha e mudo de nome se no próximo aniversário não estiver vendendo sucos de maçã prontos...

De perfil eu vi a imagem insinuante de Colibri, Marujo e Enoque, que agora pareciam mesmo eram os três porquinhos, se é que consigo explicar a forma engatada de eles expressarem, numa estranha seqüência de frases, a minha ânsia de ver o futuro.

— Eu posso ser o seu selecionador de maçãs, Dorinha.

— E eu o operador da máquina moedora.

— Comigo fica a contabilidade da fábrica. Adoro fazer contas...

Eu tinha um sentimento especial pelo mundo desses três homenzinhos que falavam aos meus ouvidos. Estavam sempre a postos quando mais  precisava deles, ao contrário dos fazendeiros que nem sequer sabiam o dia do meu aniversário.

Agora eu percebia um redemoinho apertar o peito, mas era conseqüência da alegria que experimentava ao perceber naqueles três uma autêntica motivação de crescermos juntos. Estaria assim respondendo a mim mesma que não passaria mais aniversários tão chochos como este, pois uma boa idéia traz junto de si um arrastão de vontade.

Não se sente o tempo correr quando existe certeza de que algo transborda das artérias do nosso corpo.  Foi assim que os dias e meses se sucederam. Exatamente um ano depois, quando as dezenove velinhas assopravam aqui dentro de mim, e eu já tinha aberto a minha fabriqueta de sucos de maçã. Claro, levei comigo meus três mosqueteiros. Eles  eram o sal grosso que precisava para impedir que a inveja dos Castro e dos Neves, que até então não haviam engolido a minha saída da fazenda, ficasse bem longe de nosso negócio. Acharam ingratidão da minha parte, enquanto eu e meus três porquinhos víamos como iniciativa, sair da mesmice, fugir do trabalho rotineiro, deixar de ser submissos.

Neste dia de meu aniversário, voltei à fazenda para tratar de negócios. Ela havia se tornado o meu maior fornecedor e precisava tentar convencê-los a manter o preço baixo, senão poderia ficar complicado. 

Estava nervosa, as mãos molhadas, os músculos do rosto rígidos. Mesmo assim, avançava na direção do largo vestíbulo da casa grande. Era o grande momento. Um aniversário que poderia se tornar inesquecível. Para o bem ou para o mal.

Meus pés pisaram uma folha seca na entrada. Havia um portão de ferro envidraçado depois do qual estaria dentro da casa grande. Não precisei seguir em frente. O Sr. Castro e a Sra. Neves abriram o portão e ambos me olharam com sarcasmo. Era como se viessem cobrar uma dívida com uma carta de fiança dada por mim. Fiquei sem entender por instantes. Talvez estivessem preparando alguma surpresa pois também ficaram na expectativa de alguma coisa inesperada.   

— Ainda bem que veio – disse a Sra. Neves com uma linha irônica desenhada no rosto —– Desta vez, não esquecemos o seu presente de aniversário.

O Sr. Castro de repente virou-se e apontou uma caixa ali atrás do portão. Seu sorriso me arrepiou. Continuei meio que descompensada por instantes diante do imprevisto. De fato, não esperava por aquilo. Senti meus pés incharem-se de repente e a sensação era a de que pesavam uma tonelada. Melhor, duas. Um pensamento atrevia-se na minha mente a esta altura e dizia para não demonstrar fraqueza. Não sei por que, mas era verdadeiro. Emoções desencontradas teimavam em disputar uma melhor sorte por várias partes de meu corpo àquela altura. Um chato pensamento repetitivo insistia em ressoar sem dó: “não vacile! não vacile!”. Alguns instantes mais e não conseguia reagir. Só aquele maldito pensamento alertando-me sem parar. E os outros, onde estavam? Não era possível eles me abandonarem num momento tão constrangedor. Alguma coisa estranha havia por trás da atitude daquele casal e só sentia o peso nos pés e agora minha boca tremer. Pensamentos: não me abandonem agora! Colibri! Marujo! Enoque! Voltem aqui!

Tarde. Tarde demais. Não conseguia mais pensar. As mãos do casal seguraram os meus braços e me empurraram para dentro da casa. Tropecei no meu próprio presente de aniversário e cai. Estava frita. Ou talvez assada, como aqueles três porquinhos em cima da mesa mostrando-se em belas tigelas de porcelana chinesa. Vi-os sorrindo.

— Colibri! Marujo! Enoque! – pensei alto.

Tarde. Tarde demais. Abri os olhos antes. E não consegui mais dormir pensando no que poderia ter ganho de presente de aniversário. 

Putz.



   

1 Comments:

Anonymous bel said...

Dear Felipe
Gostei muito do seu conto. Me pareceu um mix de Alice no País das Maravilhas com a história dos Três Porquinhos, mas contado com graça, ironia e com alguns sobressaltos dignos de um filme. Demorei a entender (se é que entendi bem) de que se tratava de um sonho da Dorinha. Tb não sei se compreendi bem a imagem dos três mosqueteiros em três porquinhos na mesa. Enfim, devo fazer mais uma leitura definitiva para te falar mais sobre isso. Ah, só tiraria uma coisa do final - a palavra Putz - , pois acho que ela tira a força do último parágrafo...
Ah, e teus comentários sobre os outros contos são muito bem escritos, pura literatura!
bjk
Bel

1/12/06 21:09  

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