11.22.2006

Feliz aniversário, Srta.Emma Thompson! - Miguel Saad



Ela era daquela forma, como se não pudesse se ver, olhar-se no espelho. É que lá não havia espelhos para se olhar e se ver. Então, adivinhava-se: pernas tão compridas que a distanciavam da grama que comia. Não se agachava para comer; angulava-se, como se fosse um compasso aberto para bicar o farelo no chão. Comia, enchia-se por dentro, estufava-se. As pernas, porém, continuavam sempre altas e magricelas, como se fossem membros isolados, como se Deus a tivesse dividido em duas partes.

O bico podia furar os olhos de um homem, se quisesse. Mas não queria. Era tímida por natureza. E tinha o medo delicado das donzelas. E tinha vertigem do homem, daquele homem que vinha de botas e mãos grossas trazer-lhes uma grande quantidade de ração e farelo. Ele entrava na pequena área onde todas, como ela, estavam cincunfechadas pela cerca de arame farpado toda esticada. Ela olhava de longe, sem nunca se saber forma, perna ou bucho. Não tinha a menor consciência também de que, naquele dia completava três anos de idade. Nascera, mas era como se ainda estivesse para nascer um dia. Tinha músculos, isto era verdade, mas será que também ignorava este fato?

Músculos eram para que, mesmo?

Quando o homem entrou, olhou para ela, como se tivesse premeditado suas ações. Será que ele levaria tudo o que era ela dali numa única braçada violenta? Sumiria com ela da mesma forma como geralmente acontecia com todas as outras, de uma hora para outra? Deixavam de existir e pronto, como um nascimento ao contrário. O olhar do homem a fez tremer um pouco mais do que de costume. Ele caminhava lentamente na sua direção, tentando esconder sua intenção atrás das tantas penas.

Ela não fez planos, porque nunca os fizera. Improvisava viver, sem se compreender. O bico para comer, as penas para se proteger, o bucho para encher, as pernas para... ser alta?

Mas aquele homem de botas e mãos grossas, cuja paciência e atrevimento ela olhava de soslaio, tinha um poder que ela decididamente não tinha. Isto, ela sabia pelo modo como as outras se afastavam dele, medrosas, aflitas, inseguras, magras. Enquanto andava no meio delas, abrindo caminhos, elas se dispersavam aos poucos, deixando para trás meia dúzia de penas pesadas rodopiando no ar. Uma dava algumas pernadas mais espaçadas, outra era levemente pisoteada; mas ela - individualizada agora - com suas duas únicas patas, agarrou-se à grama e a terra debaixo dela. Debaixo dela, o que havia? O destino?

Foi, então, que aconteceu a sua primeira vez (nos três anos de vida!). Percebeu sua fatalidade. De fato, ela seria a próxima vítima da carnificina a que sua espécie estava submetida e que aquele falso paraíso de boa grama, farelo, algumas árvores, vento e chuva na cara havia a enganado por tanto tempo tão bem. E, sem muita luta de consciência, pôde ver traçado todo seu curto destino ali mesmo, conectando a estranha linha que ligava o início ao fim. O homem vinha para pegá-la. De certo modo, isto a fez sentir-se diferente naquele dia. Ou era porque envelhecia? Algo estranho lhe subiu pela longa garganta dos avestruzes, vindo de uma região de seu corpo que ignorava, como uma nova força que explode em nós uma vontade intensa de viver e que já não era mais apenas vontade de comer, beber e dormir. Pela primeira vez, ela teve um desejo.

É claro que não mostrou ao seu proprietário sinais do plano que não planejava, ou da estratégia que inocentemente administrava em seu pequeno e leve cérebro lá de cima. Estava nervosa, mas estava radiante por dentro. Mas como comunicar seu desejo às outras avestruzes? Como mudar um destino tão bem traçado e organizado pelos homens? Estava sendo justa com eles, depois de tanto zelo e dinheiro gasto? Ela que tinha (pensava com certo esforço) apenas plumas e penas e um corpo pesado nas alturas. Será que era pesada demais para provar que – com penas – era uma ave e, portanto, poderia voar? Voar não longas distâncias, mas pequenos trechos aéreos, como se fosse o primeiro avião a ser testado na terra? Teria alcançado a sabedoria nata das de sua espécie? Porém, naquele dia do seu aniversário quis outra coisa, quis voar. Aquilo era pecado?

Para que serve uma daquelas que ela era? Por que viviam? Por que sumiam? Não tinha certeza. Sempre tivera fome, sede, medo e espasmos de coisas que eram como migalhas de pensamento. Passara todo o seu tempo, naquela fazenda, quando não dormindo ou comendo, tentando fazer com que todas as suas migalhas de pensamento se juntassem para, enfim, estruturar qualquer coisa que desse cabo àquela espera, a espera do sumiço repentino, como aquelas outras, todas iguais a ela. Isso, ela soube naquele instante: valia menos que o farelo que comia, esparramado e perdido no cosmo.

Começou a chover pesadamente. O homem não mudou seu curso, continuava sua investida, muito próximo dela, com aquelas mãos. E molhada, pôde, então, perceber-se melhor. Estava mais nítida. Toda água que escorria pelo corpo lhe deu o que estava faltando: a noção de si própria, seu volume, extensão, corpo e espírito. Sim, ela tinha espírito. Não sabia, porém, dizer o que era. Certamente, não era uma galinha. Galinhas são pequenas, embora com penas e bico. Também não era um homem: era bem maior que aquela espécie e era mantida do lado de dentro da cerca. Homens não têm pena, nem bicos; têm pêlos e bocas e mãos. Ensopada, associava, esquecida de ser como as outras de sua espécie. Coragem é uma palavra ou idéia bastante humana - deve ter raciocinado timidamente. Coragem é quebrar a lógica de um pensamento e unir-se a um outro totalmente novo. Então, compreendeu-se toda pela negação.

Com um descuido bastante delicado, correu como que enlouquecida no meio das outras que não entenderam nada. Correram também, esbaforidas, empenadas, como se tivessem sido jogadas em palco muito pequeno de um cabaré, as dezenas de outras iguais mas, agora, tão diferentes dela. Um trovão a ensurdeceu e, aproveitando-se do susto que levara, criou a tal da coragem. Quebrou a própria lógica e lançou-se ao vento forte.

Imitou o que, para ela, era um vôo de pássaro, porque sempre havia visto pássaros no céu. E foi levada pela sorte de uma lufada de vento para fora da cerca. “Voava” tresloucada, sem inibição ou medo de se espatifar no chão. Não era mais geométrica, precisa ou simétrica. Antes mesmo de cair, foi se desmantelando no ar como uma mulher que desfaz o penteado, retira a maquiagem, pousa o gesto e tira as meias apertadas depois de um longo dia de trabalho. E sente-se tão aliviada por não precisar mais ser “mulher”. Caiu longe do cercado, de asas abertas e olhos arregalados. Estava viva. Não acreditou em si própria. Ouviu gritos de homens e latidos de cachorro. Homens e cachorros. Não teria chance alguma. O destino seria infalível com ela também. Para onde iria se esconder se estava em um descampado, alta demais para as moitas? Do outro lado, viu a rodovia movimentada onde milhares de carros iam e vinham. Mas voltar, não voltaria. Seguiria adiante, atravessaria a rodovia do jeito que era, do que jeito que estava. Chamaria tanta atenção dos motoristas que, certamente, eles iriam parar seus carros apenas para vê-la atravessar até o outro lado.

Não ousou ter mais nenhum farelo de pensamento naquela hora de estrela. Foi de súbito contra o primeiro carro que viu. Vôo mais alto do que antes. E de lá, autorizou-se a sorrir pelo longo bico. Já não era de espécie alguma e, sim, um amontoado de penas e plumas sendo arremessado para o céu. A chuva havia parado. Não se sentiu mais: peso, corpo, bico, bucho, penas ou espírito. Não iria mais precisar de espelhos.

3 Comments:

Anonymous bel said...

Dear Miguel
Eu ameeeeei seu conto. É meio a Hora da Estrela de uma avestruz, né?
Aliás, a linguagem "claricelispectoriana" (que adoro, venero, e persigo sem sucesso no que escrevo) está do início a fim desse conto. O título é maravilhoso, com um grau de ironia fina. O encadeamento das idéias e sentimentos é fantástico, envolve, seduz, emociona - suspendi a respiração em muitos trechos, saboreei cada palavra, filosofei em cada frase. Tá divino, não dá para mudar nada aí (talvez algumas vírgulas, mas isso é coisa de revisão, uma bobagem). Parabéns múltiplos!!!
bjk
Bel

1/12/06 21:03  
Blogger Antonio said...

Concordo com a Bel. Acabei de ler e preciso ler de novo, claro! Mas se é para dar sugestões, e eu acho que esse é um dos propósitos do blog, eu não usaria a palavra 'avestruz' no texto. Deixaria implícito. Afinal, ela pouca consciência tem de si mesma. Ah, Miguel, se você tivesse ido esse conto renderia muitas discussões. Parabéns!

7/12/06 21:58  
Blogger Rayssa Galvão said...

Muito bacana o texto, Miguel! E eu jurava que era uma galinha, só quando lí avestruzes é que me dei conta.
Muito bom mesmo


(E você achava que eu não ia ler?)

11/1/07 12:48  

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